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Às vezes parece que não prestamos muita atenção ao lugar onde vivemos... Salvador é uma cidade com um clima incrível, céu radiante, o sol presente quase todo o ano, e uma temperatura estável que faz do nosso inverno não mais que uma estação chuvosa. O mar azul além de embelezar a cidade nos oferece uma umidade atmosférica constante e elevada. A brisa suave que sopra do oceano fazendo balançar as folhas dos coqueiros ameniza a sensação de calor. Quantos não vêm todos os anos visitar nosso paraíso tropical?
Curiosamente, parece que muitos dos que aqui vivem são os que menos percebem que habitamos uma região tropical... A beleza, a exuberância, as cores e perfumes característicos são tidos como menores e menos importantes que os de regiões mais frias. Em todos os aspectos, inclusive no paisagismo, prevalece a imagem de que elegância e sofisticação são atributos exclusivos de soluções que mimetizam as de regiões de clima mais ameno.
São, sim, belos os jardins que vemos publicados todos os meses em revistas especializadas. Muitas vezes as imagens que admiramos são de jardins cultivados em climas mais amenos, com plantas dessas regiões. A simples e automática reprodução desses jardins no litoral baiano não só não faz muito sentido, como muitas vezes nem possível é.
As plantas estão adaptadas a viver em ambientes com características específicas. Nem sempre suportam viver em lugares com características diversas daquelas dos ambientes em que se originaram. Se temos plantas originárias de ambientes tropicais, por que deveríamos deixar de cultivá-las? Por que substituí-las por plantas características de outros ambientes, de adaptação incerta ou de desenvolvimento limitado em nossas condições? Por que não escolher plantas que encontram aqui o ambiente ideal para se desenvolver? Nos jardins esperamos mais do que a sobrevivência das plantas. Trabalhamos pela sua plenitude. Como obter essa plenitude com plantas impróprias ao nosso clima?
Com freqüência se diz que os jardins do sul e sudeste do Brasil seriam mais bonitos por ser lá o clima melhor para cultivá-los. Não há dúvida que plantas de clima ameno ficam mais bonitas onde o clima é ameno. Em contrapartida, plantas de clima tropical se desenvolvem melhor onde o clima é tropical. Não, o calor não é impróprio. Impróprio é fingir que não estamos em uma região tropical e tentar fazer aqui jardins de clima temperado.
Há uma variedade enorme de espécies de interesse paisagístico e sub-utilizadas. A começar pelas palmeiras, tropicais por excelência. Das centenas de espécies existentes, quantas vemos em nossos jardins? Pouco mais de meia dúzia, talvez. As helicônias, tão faladas, em quantos jardins estão? Temos ainda muitas outras, bromélias, calatéias, filodendros, dieffenbachias, antúrios e caládios, estes há tanto tempo desaparecidos. E as orquídeas, tropicais também, que têm fama de difíceis e complicadas sem na verdade o serem... Por que não conhecê-las melhor?
Mas fazer um jardim tropical não só uma questão de escolher plantas apropriadas. Não basta substituir as plantas de um jardim de clima ameno por outras que gostem do calor para se obter um jardim tropical.
Os jardins das revistas são belos não só por que têm as plantas certas no clima certo. Mas também por que estas são agrupadas de maneira coerente, formando um conjunto rico e atrativo. Evidentemente, plantas diferentes implicam em harmonias diferentes. Jardins tropicais devem ter linguagem própria, diversa, que os organize, que valorize as particularidades das espécies utilizadas e lhes dê identidade. E se ainda não há muita tradição nessa linguagem, cabe a nós desenvolvê-la.
Por que aqui, ser tropical é ser autêntico, é tirar partido da exuberância da nossa vegetação, de sua beleza, de suas cores. É ser coerente, obtendo das plantas a sua plenitude, o máximo de sua beleza e desenvolvimento ao invés de lutar contra a natureza. É ser sofisticado, ter estilo próprio que valorize nossas próprias características. É ser elegante e independente, desfilando nossa beleza com todas as suas particularidades, sem tentar fingir sermos o que não somos ou estarmos onde não estamos. Assim não restam dúvidas. Nos trópicos? As tropicais!