Artigos
A sombra nossa de cada dia

Todos queremos viver numa cidade melhor. Entretanto, olhamos para os espaços públicos como se não fossem nossos, nem de nossa responsabilidade. E achamos que o que acontece dos muros de nosso terreno para dentro só a nós diz respeito. Será que é assim simples?


A cada ano que passa mais algumas árvores desaparecem de nossa cidade. Uma a uma, vão sendo cortadas. Às vezes por prejudicar a rede elétrica, outras por danificar o passeio. Há casos em que as “vítimas” faziam muita “sujeira” com a queda de folhas ou flores, outros em que atrapalhavam a visibilidade de um empreendimento comercial... Árvores plantadas há vários anos desaparecem em minutos, sem muito critério ou preocupação, feitas em pedaços por motosserras. E em seu lugar fica um pedaço da cidade um pouco mais árido.


Boa parte do caráter de um espaço urbano, do conforto que oferece, é resultado da atitude de cada um de seus habitantes. Com relação à arborização urbana também é assim. Todos percebemos as áreas arborizadas como melhores para se viver, os bairros arborizados como mais nobres. Todos gostamos de parar o carro na sombra. Todos preferimos esperar o ônibus protegidos do sol. Mas esquecemos que a arborização depende de cada um de nós. Manter uma árvore no passeio ou no quintal custa muito pouco, e traz enormes benefícios.


Os materiais que usamos para construir nossas casas e pavimentar as vias tem a propriedade de, ao receber a incidência da energia solar, absorver boa parte dela, e devolvê-la em forma de calor à atmosfera. Essa é uma das características que fazem das áreas urbanas ambientes muito mais quentes (às vezes 5 ou 6ºC) que as áreas rurais próximas. Isso porque as cidades são pobres em vegetação, que utiliza a energia solar na fotossíntese e não a armazena e libera em forma de calor, como o concreto e o asfalto, tão abundantes.


A sombra das árvores é muito mais eficaz do que o sombreamento produzido por um elemento construído no que diz respeito à redução da temperatura do ambiente urbano. E é igualmente eficaz ao proteger pisos e paredes da energia solar, trazendo muito mais conforto aos ocupantes das edificações. Ao mesmo tempo, pisos cobertos de vegetação como os gramados também proporcionam melhoria no desempenho térmico do ambiente. Uma área gramada exposta ao sol transmite muito menos calor ao ambiente do que se estivesse revestida de qualquer outro material inerte, por que a grama consome a energia solar incidente no processo da fotossíntese. E não custa lembrar que as áreas gramadas são permeáveis e absorvem a água das chuvas ao invés de lançá-las rapidamente nos sobrecarregados sistemas de águas pluviais da cidade poluindo rios e causando inundações.


Toda forma de vegetação urbana, em particular as árvores, também tem a propriedade de atrair, abrigar e alimentar uma infinidade de formas de vida, benéficas ao equilíbrio do ecossistema. São pequenos animais, pássaros e insetos que se alimentam principalmente do néctar das flores e dos frutos. Se a vegetação for nativa da região, maior sua integração com a fauna local.


Surpreendentemente, o que vemos são grandes árvores serem gradativamente derrubadas ou substituídas por pequenas árvores podadas, que não oferecem sombra nem fornecem abrigo e alimento à fauna.... Pequenos e grandes empreendimentos, ao ocupar um terreno, primeiramente promovem uma verdadeira devastação, onde tudo é arrancado. Não seria mais simples e adequado preservar ao menos as árvores que não ocupam o espaço que será utilizado pela casa ou pelo edifício? Por que derrubá-las?


Há uma infinidade de espécies de árvores apropriadas para o plantio em áreas urbanas. Quando uma árvore precisa ser podada porque seus galhos impedem a passagem de pessoas ou veículos, danificam a rede elétrica, prejudicam telhados, ou suas raízes causam problemas levantando pisos e muros é simplesmente por que a árvore errada foi plantada no lugar errado. Há plantas para todo o tipo de condição. Para decidir sobre qual é a espécie mais indicada para determinado local, precisamos nos informar sobre todos os seus detalhes. Qual o porte que atingirá quando adulta? Qual o clima em que tem origem? O espaço disponível é suficiente? Ficará próxima à rede elétrica ou a construções? Proporciona uma sombra leve ou densa? Perde as folhas em algum período do ano? Como são as folhas? Produz frutos? De que tamanho? Quando floresce? Como são as flores? Qual a velocidade com que se desenvolve? Enfim, informações que podem ser dadas pelo seu fornecedor de mudas e que orientam a escolha da árvore ideal para a sua condição.


Quando escolhemos uma espécie adequada às condições do espaço em que será plantada, não temos surpresas desagradáveis ou transtornos. Temos apenas benefícios, como a sombra e frescor que as árvores proporcionam, a beleza de suas flores, o prazer de colher seus frutos ou a ruidosa alegria das mais variadas espécies de pássaros. Não há desculpas para não ter ao menos uma árvore no passeio. Façamos nossa parte para melhorar nossa cidade. Mãos à obra!

Marcos MalamutMarisol BariniArquiteturaLojas ConceitoInterioresPaisagismoTreinamentosWorkshopsNossos Projetos
Prof. Marcos Malamut